Levantei minha cabeça, sem entender do que ele estava falando.
Havia insistido tanto para que ele assistisse um filme de comédia romântica comigo, que até mesmo me esqueci que ele crítica muitas das cenas ao invés de rir como uma pessoa normal.
Mas essa não era nem a questão.
No meio do filme, tive uma ideia para um dos meus livros e não resisti em correr para pegar o caderno e anotar essa ideia antes de esquecer.
Quando ele disse aquilo, interrompi a escrita e olhei para a televisão, mas a cena já havia se passado.
- Hein? - perguntei sem entender nada.
Kalleb abriu a boca para me explicar a cena, mas ao olhar para mim, sua expressão ficou totalmente indecifrável para mim.
- Você me chama para assistir um filme e você não assiste?! - seu tom, como a expressão, foi difícil de identificar.
- Desculpa kallzin - sorri boba, chamando ele pelo apelido que lhe dei.
Ele fez bico, inflando as bochechas daquele jeitinho que o faz parecer criança, mesmo já tendo 18 anos nas costas. Cruzou os braços e recostou as costas no sofá.
Queria rir daquela birra imatura dele, mas sabia que era esse tipo de coisa que ele queria. Sempre usa isso para conseguir o que quer, e depois sorria de maneira debochada, por ter conseguido.
- Vai Kall, você sabe como eu sou! - disse e logo depois comecei a cutucar ele com o pé.
Infelizmente não tive nem uma reação dele em resposta.
Ele era tão teimoso quarto eu para algumas coisas, então não resisti em irita-lo um pouco.
Coloquei os dedos dos pés por de baixo da sua camisa, até então ele não tinha reagido, mas quando ia colocando por dentro da calça ele deu um pulo.
- Amanda! - brigou ele em susto enquanto eu caia em risos.
As vezes eu realmente fazia aquilo apenas por ameaça, era raro continuar, mas sempre me rachava toda com as reações dele.
Ele se levantou, o bico continuava em seu rosto, mas dessa vez, com um pouco de raiva de verdade estampada em seus olhos azuis.
Com um pouco de medo do que ele poderia fazer, fechei o caderno e antes que pudesse me levantar, fui atingida por uma almofada, que nem vi quando foi retirada do sofá.
Quando olhei para Kalleb, surpresa ao me recordar da agilidade dele, me deparei com ele jogando outra almofada levemente para o ar e a pegando, pronto para jogar em mim novamente.
E lá estava ele, aquele maldito sorriso que atraí a atenção de um monte de mulheres, e que me irrita tanto.
- Tá bom! Eu me rendo - ergo as mãos em rendição.
- Bom mesmo - ele jogou a almofada, que pousou no sofá a milímetros de distância de mim - agora vamos, vou fazer alguma coisa pra comer, principalmente se eu for voltar aquela cena pra você! - ele sumiu na cozinha.
Fiquei boba com aquilo, sempre ficava, até hoje não me acostumei com aquele jeitinho dele e olha que já faz 7 anos que nos conhecemos, e uns 3 (se não estou contando errado) que namoramos.
Me levantei na pressa e fui atrás dele, pausando o filme.
- Você queria dizer: maldita cena? - perguntei para ele que se encontrava de costas pra mim, mechendo em algum coisa na pia.
- Hum? - perguntou ele, se virando para mim, com um donuts mordido em mão.
- Do jeito que você xingou aquela hora, deve ser uma "maldita cena" - expliquei indo até ele e pegando o doce de sua mão - não é mesmo? - mordi e sai da cozinha ainda comendo o doce.
Pude ver o olhar confuso dele por cima do meu ombro e ri internamente.
Kalleb tem vários lados, e eu amo cada um deles.
Me sentei no sofá novamente e comecei a rebobinar o filme. Pouco depois, ele apareceu meio correndo com uma tigela de pipoca e se sentou ao meu lado.
- Pode me devolver o donuts? - ele apontou para o doce que ainda estava na minha mão.
Infelizmente, mesmo vendo e ouvindo ele, eu não regi, estava fixada na tigela de pipoca.
Aquilo, uma coisa tão simples, me trazia fraguimentos de algumas lembranças que me deixavam tanto triste, tanto com raiva...
A questão é: aquelas lembranças não são minhas!
- Man... Amanda! - ele me chamou novamente, dessa vez batendo palmas em frente ao meu rosto.
Voltando a realidade, balancei a cabeça em negativa, tentando expulsar seja lá o que era aquilo da minha mente.
- Desculpa... Eu... Não sei o que aconteceu - tentei explicar.
Após o filme chegar em uma parte que me lembrava, o pausei novamente e fiquei parada sem fazer nada por um tempo que me pareceu eterno.
Do mesmo jeito que eu conhecia muito bem o Kalleb, ele também me conhecia.
Logo ele me puxou de leve e colocou minha cabeça em seu ombro, me abraçando e me acariciando.
Ficamos assim por um tempo. Alguma coisa me dizia que ele queria falar algo, apenas não sabia como dizer, mas estava tudo bem... Eu precisava do silêncio, queria entender aquilo sozinha primeiro.
- Posso soltar o filme? - disse ele por fim.
- Pode... - respondi em um volume que duvidava de que ele ouviu.
Para a minha sorte, Kalleb consegue ouvir até os mínimos sons do mundo, então ele logo pegou o controle da minha mão e deu play no filme.
Não demorou nada para que a cena que ele havia xingado chegasse, e eu soube que ele estava se contendo para não xingar novamente.
Aquela cena... Do mesmo jeito que a tigela de pipoca, me trouxeram lembranças que eu tinha certeza não serem minhas.
A cena era de uma garota chorando enquanto desabafava para um amigo sobre o relacionamento que teve, o engraçado era que esse amigo também era amigo do ex dela.
- Que idiota... - disse por fim.
- Eu falei, não falei? - perguntou ele, com um pequeno sorriso em rosto.
- Mas você estava falando dela ou do ex dela? - é, eu sempre faço essas perguntas idiotas.
- Do ex - e ele, sempre simples e direto.
Passamos o resto do filme falando sobre algumas cenas. Mesmo sendo eu quem convenceu ele de assistir, tenho que admitir, não sou muito afim desse estilo.
Quando me dei conta, já estávamos deitados no sofá. Eu, como o de costume, estava por cima dele, com a cabeça sobre seu peito, e ele acariciava minhas costas.
Aquele era mais um dia normal no Estúdio, todos já estávamos acostumados com cada coisa estranha que acontecia, tanto que tudo já deixou de ser estranho.
Logo o filme acabou, e só vi Kalleb erguendo o braço pra mexer no cabelo, olhei pra ele, sabendo que ele queria dizer algo.
- Vai, fala.
- Que? - ele me olhou confuso.
- Você faz isso as vezes! - coloquei a mão no seu cabelo e o baguncei de leve - você tira a franja do rosto quando tá frustrado.
Ele fez um pequena careta e tirou a mão do cabelo. Olhei pra ele com bastante esperança, é um sorriso sincero no seu rosto.
Sabe, acho que tenho mania de interromper algumas coisas. Pois no exato momento em que ele iria dizer, vi um fio negro de seu cabelo fora do lugar, e não resisti em arrancar.
- Ei! - reclamou ele, pela leve dor que sentiu - isso é maldade! - passou a mão novamente sobre o cabelo.
- Fala logo!
- Tá, tá! - ele fez bico, dessa vez o drama era por eu ter ganhado em algo por uma simples fala - mas que... Filme mais bosta.
O jeito que ele interrompeu, era como se eu fosse bater nele pelo simples fato de pronunciar essas palavras. O que poderia ser o caso, já que foi eu quem escolheu o filme, mas não era o caso dessa vez.
- Verdade - com isso me levantei.
Ele me olhou surpreso e se sentou.
Aquela expressão sempre me ganhava e sai da sala dando algumas risadinhas.
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