Mudar nunca foi fácil pra ninguém. Mas Bia não teve medo e decidiu sair de seu país de origem para seguir seus sonhos.
Sonhos esses que ela já não se lembrava mais.
Bia não sabia as dificuldades que enfrentaria, não sabia que o novo pais seria tão diferente.
— Você quer alugar um apartamento? — essa foi sua primeira dificuldade.
— Eu quero sim...
— Mas com quem dinheiro? Não aceitamos de outros países!
Ela havia se esquecido desse detalhe.
— Mas senhor, eu preciso de um lugar para morar!
— E eu preciso de dinheiro! — o homem começou a alterar a voz — Para tudo se precisa de dinheiro, minha jovem.
Em um suspiro, Bia deu meia volta. O homem tinha ração, ela precisaria de dinheiro e não só para alugar um apartamento, como para tudo em sua nova vida.
Mas o que ela poderia fazer? Não conhecia ninguém para lhe ajudar...
Sua mente começou a pensar em tudo, mas não conseguia sair do lugar.
De tanto andar à procura de um lugar para ficar, ela entrou em uma pequena lojinha, disposta apenas a observar, afinal, não tinha dinheiro para comprar nada.
— Com licença! — ouviu uma voz desconhecida.
Ela olhou ao redor, procurando a quem aquela voz pertencia.
Ao ver um homem correndo em sua direção, não pensou duas vezes em desviar. Sua vida já estava boa o suficiente para ser derrubada por um desconhecido.
Mas isso não impediu do jovem de bater o rosto na porta de vidro da lojinha.
Em meio aos murmúrios de frustração do jovem, Bia tentava conter o riso, decidida a ir ajudar o jovem.
— Você está bem?
— Estou sim, obrigado. Esse vidro está tão limpo dessa vez, que nem o vi...
— Igor, ande logo! Se não vão derreter com esse calor! — Uma voz feminina gritou do balcão.
— Desculpe! — o jovem respondeu — Bem, agradeço a ajuda, mas agora tenho que ir. Trabalho de entregador não é fácil — deu de ombros e voltou a correr.
A palavra ecoou na mente de Bia. Era aquilo que ela precisava! Um trabalho!
Foi até a senhora que se encontrava no balcão e ofereceu seus cervos, mas não foi aceita. Mas ela não poderia desistir, não depois de tudo o que aconteceu...
Saiu da lojinha e foi entrando em outras. Contava um pouco de si, mas não teve sucesso.
Depois de tanto procurar, ela se sentou em uma calçada e ficou por lá, pensando o quanto sua mudança lhe prejudicou.
— Olha só. É você de novo! — ouviu uma voz famíliar.
Ao erguer a cabeça, se deparou com um jovem motoqueiro, que ao retirar o capacete, revelou ser o jovem chamado Igor da primeira lojinha da qual passou.
— Oi.
— Hei! Por que está tão triste? — ele perguntou, se sentando ao lado da jovem.
— Eu vim de outro país, mas não tenho dinheiro brasileiro para viver...
Igor não respondeu, sabia o quanto aquilo poderia ser frustrante.
Foi aí que o jovem teve uma ideia:
— Você sabe cozinhar?
— Sei sim, por quê?
— Uma conhecida minha precisa de ajuda na confeitaria, se você se interessar — ele sorriu.
— Por favor!
O jovem se levantou e ergueu a mão para a jovem.
— Prometo ser cuidadoso.
Ela não tinha ideia do que ele estava falando, mas ao ser ajudada a subir na moto, o medo a atingiu.
Não poderia dizer nada, ele estava fazendo um favor a ela.
Ao chegarem na confeitaria, a amiga de Igor não pensou duas vezes e já entregou um avental para Bia.
A confeitaria estava cheia, tão movimentada que Bia teve que aprender sozinha o que tinha que fazer.
As palavras de sua líder, eram confusas para a jovem que mesmo entendendo e conseguindo se comunicar em português, não conhecia tudo o que lhe era ordenado.
Quando o dia finalmente acabou, as duas se sentaram para descansar, aliviadas por terem conseguido mais um dia.
— Me chamo Estéfane. E você? — a moça finalmente se apresentou.
— Pode me chamar de Bia.
— Você é boa Bia. Você mora aqui perto? Adoraria que me ajudasse mais vezes até que a funcionária melhorasse.
— Eu... Na verdade não tenho um lugar — Bia sentiu vergonha ao falar.
— Bem, se você estiver disposta a me ajudar, eu deixo você ficar no sobrado aqui de cima até que a Ester melhore do pé — ela apontou para a parte de cima da confeitaria.
— Eu agradeço muito. Mas não tenho como te pagar.
— Por enquanto não precisa.
Mas tudo tinha um custo, um do qual Bia ainda desconhecia.
Todos os dias ela trabalhava duro e junto o dinheiro que Estéfane lhe pagava.
A moça lhe tratava tão bem, que sempre ajudava Bia. Mas também, garantia que tudo aquilo era temporário.
E quando o dia chegou. Bia teve que sair do pequeno lugar que passou a chamar de casa.
— Eu sinto muito Bia, mas eu não consigo pagar duas funcionárias — Disse Estéfane, abraçando Bia, que se tornou uma grande amiga.
Mesmo não podendo mais ter o conforto que tanto desejava, Bia ainda precisava sobreviver.
Então, começou a procurar emprego novamente, mas ninguém a queria pela falta de um currículo. Mesmo que Estéfane tivesse lhe pagado, ela não trabalhou de carteira assinada.
Quando o dia estava chegando ao fim, Bia teve que procurar um lugar para ficar.
A caminhada parecia infinita, mas ao se dar conta, percebeu que estava diante daquele apartamento que não poderia quitar.
Mas agora a jovem tinha dinheiro para tal e decidiu arriscar. Alugou o apartamento sem nem uma complicação dessa vez.
Mas ainda precisaria de emprego.
No dia seguinte, voltou a procurar oportunidades de emprego, mas ninguém a contratava.
Foi ao sentir um cheiro diferente, que sua mente ficou em branco. Olhou ao redor, mas não encontrou a delícia que lhe invadia as narinas.
Quando se deu conta, já estava seguindo aquele cheiro, chegando até uma vitrine repleta de ovos de chocolate.
Ela havia se esquecido que essa época do ano já se encontrava tão próxima.
Mesmo aqueles chocolates parecendo deliciosos, seu dinheiro não era o suficiente.
Suspirou e deu meia volta. Se quisesse algum chocolate, teria que ser aquele de mercado.
E foi o que fez. Entrou em um mercado com intenção de comprar uma simples barra de chocolate para passar à vontade. Mas ao olhar para o doce, sua mente se inundou de ideias.
— E se eu fizesse? Eu sei cozinhar...
Decidida, comprou algumas barras de chocolate próprias para produção de delícias desse tipo. Levou para casa animada, sem se dar conta do quanto aquilo lhe ajudaria.
Ao chegar, não pensou duas vezes e começou a preparar, sua cozinha ficava bagunçada a cada momento que olhava. Havia chocolate espalhado por todos os lados. Utensílios que já não sabia mais quais lugares pertenciam.
Mas Bia estava confiante no resultado, que ao atingir, se sentiu aliviada.
Começou a organizar tudo.
Ao final, não conseguia comer o tão desejado chocolate, decidindo tirar algumas fotos para se recordar daquilo que lhe deu tanto trabalho.
Postou em suas redes sociais apenas por postar, mas enquanto comia o chocolate que preparou, a foto ganhava visualizações e comentários rapidamente:
"Parece uma delícia"
"Quanto custa?"
"Você está vendendo?"
Bia não tinha ideia de como reagir a tudo aquilo, mas decidiu responder, dizendo que não vendia...
"Que pena, eu adoraria comprar um..."
E foi assim que ela teve a ideia de continuar a produção de chocolates. Afinal, ela precisaria de dinheiro de alguma forma.
A produção de chocolates foi um grande desafio, mas ela conseguiu superar, vendo para pessoas que tinham disponibilidades de buscar e quando se deu conta, os chocolates passaram a ser vendidos via entrega.
— Desculpa te incomodar depois de você ter me ajudado tanto. Mas, você poderia me ajudar uma última vez? — Bia falava com Igor por ligação.
Após descobrir sobre os chocolates de Bia, passava a comprar sempre, mas a preferência acabou fazendo com que o jovem perdesse o emprego do qual estava.
— Claro que posso, o que gostaria? — mas seu coração continuava disposto.
— Eu preciso de alguém para entrar chocolates... Então pensei que você poderia fazer isso. Eu te pago! — a última frase veio mais alta do que gostaria.
— Claro que te ajudo! Vai ser um prazer!
E assim, Igor passou a ser o entregador de Bia.
Essa companhia foi crescendo junto à fabricação de chocolates, que deixou de ser no apartamento de Bia, passando a ser em uma confeitaria de chocolates, um lugar que os dois lutaram para erguer.
Os doces não só conquistaram a Páscoa, como o coração daqueles que sempre compravam, pois sabiam que havia uma paixão na fabricação de cada chocolate e seus detalhes.