quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Missão 3: Mansão

Do topo do prédio, Spy abaixou sua arma ao ver Traveler correndo para longe, até sumir de vista.

Essa era sua garantia de que havia cumprido a missão. Agora, só lhe restava sair dali. Olhou para baixo e viu os monstros se aglomerando em um único ponto, tentando encontrar um meio de subir. Depois, voltou o olhar para a direção por onde Traveler havia escapado.

Determinado, Spy correu até a beirada do prédio e saltou, caindo agachado no chão. Sem perder tempo, levantou-se e começou a correr em busca de Traveler. Mesmo sem saber exatamente onde ia dar, conhecia bem os hábitos de Traveler — e sabia que sobreviveria naquele mundo desconhecido.

Sem fôlego, Spy finalmente parou. Olhou ao redor e percebeu o quanto havia se distanciado da cidade.

Já se via próximo de uma área rural. Sorriu. Não havia monstros por perto. Era um lugar seguro... Um lugar para onde Traveler provavelmente teria fugido sem perceber.

Com isso em mente, avançou entre as árvores. O lugar parecia uma floresta comum — até que começou a ver o início de uma construção. Era estranho... tão estranho quanto os sons que ouviu ao redor.

— Deve ser coisa da minha cabeça... — sussurrou, parando ao ver uma mansão escondida no meio da floresta.

Spy era do tipo que sempre mantinha os olhos abertos. Mas aquela dimensão também era nova para ele.

Aproximou-se devagar do portão, atento a cada detalhe. Não sabia se aquele lugar era realmente seguro, e os ruídos crescentes não ajudavam em nada.

Foi quando reconheceu o som. Algo se aproximava... era um animal, embora estranho. Num instante, pulou o portão — mal teve tempo de ver a criatura que saltou atrás dele. Não quis arriscar. Correu até a porta da mansão e entrou.

Fechou a porta rapidamente, ainda processando se os animais haviam passado.

— Então os animais não morreram pelos monstros... — murmurou sem pensar.

Foi nesse momento que percebeu que não estava sozinho.

Um som, mesmo que leve, ecoou do andar de cima. Não parecia ser de monstro. Spy reconheceu isso de imediato.

Silencioso, subiu as escadas, atento a qualquer sinal. A casa era grande, mas não havia muitos lugares para se esconder — não de um espião como ele.

Ao olhar para um dos quartos, reconheceu uma cabeleira ruiva surgindo por trás da cama. E em absoluto silêncio, posicionou-se ao lado de Traveler, que tremia de medo. Abaixou-se e anunciou calmamente sua presença:

— Te achei.

Traveler não apenas deu um pulo de susto, como também se jogou para frente com tanta força que bateu a cabeça no batente da janela. O impacto foi tão forte que desligou temporariamente seus sistemas.

— Era só o que me faltava... — resmungou Spy, levantando-se.

Ele sabia que aquilo acontecia. Era um sistema de segurança — para que ninguém acessasse as informações dentro de Traveler. Sempre que entrava em risco, sua memória se apagava antes de voltar.

Meio sem jeito, fez o de sempre: ergueu o corpo imóvel de Traveler e o deitou sobre a cama. Mas, dessa vez, ficou observando aquele rosto. Não era muito mais jovem que o seu. A tecnologia era impressionante. Poderia enganar qualquer um... se Traveler não carregasse um fardo tão grande.

Ao ver os óculos de aviação sobre a cabeça de Traveler, Spy os retirou e examinou. Reconheceu a assinatura de quem os fez. Doll os projetou especificamente para Traveler. Mesmo que Spy os usasse, não funcionariam. Por isso havia recebido suas próprias ferramentas: as balas e a arma feitas por ela.

Sem mais o que ver, deixou os óculos sobre a cabeceira da cama e desceu até a cozinha. Sabia que Traveler acordaria com fome — e pretendia preparar algo.

Spy cozinhava bem. Precisava. Boa parte de sua vida foi vivida sozinho, na sombra de Traveler. Por isso, não demorou para que um lanche estivesse pronto no prato.

Ao se virar, deu de cara com Traveler em pé, segurando os óculos. Seus olhos antes verdes agora tinham um leve tom de azul.

— Quem é você? — perguntou Traveler, apertando o par de óculos nas mãos.

— Sou um amigo — respondeu Spy, estendendo o prato. — Agora sente-se e coma. — ordenou, direto.

Para sua surpresa, a ordem funcionou. Traveler se sentou e os olhos voltaram ao tom verde.

Mesmo rebelde e contraditóire a qualquer ordem, Traveler ainda obedecia algumas coisas... e isso sempre surpreendia Spy, que nunca teve intenção de controlar Traveler.

Enquanto comia, Spy sentou-se ao lado, observando atentamente cada movimento até que terminasse.

— Se lembra de quem salvou sua vida? — perguntou de repente.

— A pessoa que quase atirou em mim? — respondeu Traveler, sem pensar. — Me lembro sim...

— Eu não atirei em você! — gritou Spy, indignado.

— Foi na minha direção. É a mesma coisa. — disse, só então percebendo. — Espera... foi você? — arregalou os olhos. — Você podia ter me matado!

— Eu salvei sua vida!

— Salvou nada! Eu que saí correndo!

— Porque eu mandei você correr!

E foi a última frase dita.

Spy não sabia se Traveler se lembrava dos comandos que recebia, então não podia insistir naquilo. Não podia correr o risco de revelar mais do que devia.

— Olha... desculpa. Minha intenção nunca foi te acertar, só chamar sua atenção — disse, por fim.

— Está desculpado — murmurou Traveler, não ligando muito para a conversa. — Me diz... como me achou? Aqui é longe da cidade.

— E é o único lugar sem monstros. Fica fácil, vendo por esse lado — murmurou, observando Traveler terminar de comer. — E por isso, acho que seria bom ficarmos por aqui por um tempo.

Com a última garfada na boca, Traveler olhou de canto para Spy. Não podia discordar. Apenas ficou em silêncio.


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