Essa história começa em uma floresta. O único lugar que sempre pude chamar de lar, o lugar que considero minha casa desde o momento em que acordei.
Posso não me lembrar de quem realmente sou, nem ter ninguém que me ajude com isso, mas tenho tudo de que preciso: uma casa na árvore, roupas, comida... E até mesmo conhecimento sobre algumas coisas.
Não sei explicar como essas coisas são possíveis, apenas sei que acontecem. Eu sei várias coisas, mas não sei de mim. As coisas simplesmente aparecem para mim, como se já soubessem que eu precisava delas.
Vivo em harmonia com os animais. Não os machuco, e eles não me machucam. Essa é a regra.
Mais uma vez, me encontrava vagando pela floresta, em busca de algo para fazer. Retornei para casa com machucados superficiais, que pareciam se curar rapidamente, sem deixar cicatrizes.
— Mas o que é isso? — quando cheguei ao pé da escada, deparei-me com uma caixa bloqueando meu caminho.
Eu tinha minhas dúvidas de que alguém soubesse da minha existência. Afinal, sempre apareciam coisas misteriosamente, mas nunca consegui ver quem as colocava lá...
Mas, dessa vez, ao olhar ao redor, vi uma silhueta entre as árvores, se afastando rapidamente.
Fiquei encarando a silhueta por um tempo, tentando distinguir qualquer detalhe, até que, finalmente, desapareceu completamente da minha vista.
— Tenho a sensação de que ainda está me observando... — suspirei, imaginando que a silhueta ainda poderia estar por perto.
Sentei-me na grama, com muita curiosidade. Queria entender o que era aquilo e o que significava. Foi então que notei um pedaço de papel debaixo da caixa.
Peguei o papel com cuidado e comecei a ler, me surpreendendo com cada palavra:
Feliz aniversário, Traveler.
Espero que esteja bem.
Desculpe por não estar aí em seu 16º aniversário, mas saiba que uma parte de mim sempre estará com você.
Como esses presentes.
Use-os com sabedoria, pois não são brinquedos.
De sua querida Doll.
Um misto de emoções me invadiu. Então essa pessoa que sempre me traz coisas sabe quem eu sou? Se realmente sabe, por que nunca me contou? Por que nunca se revelou para mim?
Queria ter todas essas respostas, mas não sabia como encontrá-las. Então, o que me restava era esperar. Talvez, algum dia, as descubra.
— Traveler... — repeti o nome, pensando que poderia ser o meu.
Se essa pessoa realmente sabe quem eu sou, por que se esconde? E por que não me conta nada?
Com tantos pensamentos em mente, levantei-me, peguei a caixa e subi até a casa na árvore. Sentei-me na minha cama, deixando a caixa ao meu lado.
Meus pensamentos vagaram por um tempo, ainda querendo entender os motivos por trás de tudo isso. Mas, no fim, não encontrei respostas, apenas mais dúvidas.
Decidi deixá-las de lado e olhei para a caixa. Se aquilo realmente era para mim, talvez houvesse algo lá dentro que pudesse me ajudar a descobrir as respostas para essas perguntas.
Retirei a tampa da caixa, com esperanças de que fosse algo realmente útil. Mas não havia nada que me indicasse isso.
Era um par de óculos de aviação e um livro vermelho, de capa dura e sem título.
Mesmo sendo presentes muito peculiares, não pude deixar de achar interessante. Peguei os óculos e os ajeitei na minha cabeça. Talvez tenha sido sorte que realmente serviram.
Depois disso, peguei o livro, esperando que seu interior pudesse ter respostas para minhas dúvidas constantes.
Mas, quando abri, acabei me decepcionando com o conteúdo de suas páginas...
— Como assim? Está em branco! — folheei cada página e, infelizmente, essa era a verdade — como isso é possível?!
Minhas últimas esperanças de descobrir a verdade sobre mim acabaram de desaparecer diante dos meus olhos.
Não sabia o que sentia naquele momento, apenas sei que soltei o livro, que caiu no chão, totalmente fechado.
Meus olhos se tornaram embaçados. Sabia que estava chorando. Não me lembrava se isso alguma vez havia acontecido, mas não importava. Afinal, sabia muito bem o motivo.
Deitei-me e não consegui me segurar. Não conseguia acreditar que aquilo realmente era verdade... Eu realmente nunca iria descobrir nada sobre mim. Essa era a triste realidade que me rondava.
Quando, finalmente, o choro cessou, tive a sensação de que pegaria no sono a qualquer momento. Meus pensamentos se acalmaram, me deixando com a mente tranquila o suficiente para me recordar das coisas ao meu redor.
Segurei os óculos, que antes estavam na minha cabeça, e os coloquei nos olhos. Mesmo sem muitas respostas, pude descobrir um pouco sobre mim: meu nome e que alguém zela por mim. Seja lá o que isso possa significar, já me confortava.
Fechei os olhos, prestes a adormecer. Minha vista logo ficou escura. Me senti como se estivesse caindo, como se o sonho tranquilo que eu deveria ter já se iniciasse como um pesadelo.
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