O lado bom é que ele sempre dormia em uma posição que parecia planejada para que eu colocasse minha cabeça em sua mão, afinal, assim que fiz, já fui recebida com um carinho.
Acordei no mesmo lugar, o que se era estranho, já que me mexo muito na cama. Mas, talvez Kalleb tenha me ajeitado depois d voltar para a cama após se levantar de madrugada pra ir beber água.
Olhei pra ele, não sabia se estava em um sono pesado ou não, então resisti a vontade de tocar seu rosto.
Me levantei com cuidado e desci para a cozinha, para tomar um achocolatado.
Não sou uma pessoa bem humorada antes das 10hrs, então não dei bola quando vi o Alex sentado na mesa e tomando seu café da manhã, composto de suco e torradas.
Preparei o meu achocolatado e me sentei na sua frente. Estava pensando no plano referente a ir até o universo da garota da minha visão.
- Bom dia - disse Alex de repente, bebendo do seu suco.
- Bom dia - respondi, sem nem mesmo olhar pra ele.
Os pais dos Alex acordavam cedo por causa do restaurante, e vez ou outra, ele acaba acordando também. Mas quando se tratava de acordar tarde, ninguém conseguia ganhar dele.
Pouco a pouco, foi entrando mais pessoas na cozinha, dispostas a tomar o seu próprio café da manhã.
Ainda estava voltando a adquirir meu bom humor de sempre. Então, ao terminar meu achocolatado, coloquei o copo na pia e sai de lá.
Em determinados momentos da minha vida, gostava de ficar sozinha, em outros, de ficar acompanhada, mas existia um terceiro, esse se tratava de pouca companhia e com pessoas específicas.
Voltei para o quarto do Kalleb, ele já havia se levantado, só não desceu para a cozinha como o restante do pessoal por ser mais anti social do que eu.
- Bom dia lobinha - ele disse enquanto virava as páginas do álbum de fotos.
Ele não olhou pra mim, mas era normal logo de manhã, era uma das coisas que mais tínhamos em comum.
Me sentei ao seu lado e coloquei a cabeça em seu ombro. Ele virava as páginas do álbum e demorava em alguma foto, se recordando exatamente daquele momento com todos os detalhes.
- Acha que alguma coisa mudou? - perguntei de repente.
Como eles (Kall e Kalleb ) podiam ver o tempo, sabiam quando alguma coisa referente a ele mudava, mesmo que não soubesse o que.
- Não tenho certeza... - ele virou a página e passou o dedo por uma foto nossa de Halloween - A albinis deve ter mais certeza.
Pude ver o sorriso em seu rosto. Mesmo ele não se dando muito bem com a data, o dia havia sido realmente bom.
Ele tentava morder meu pescoço como um vampiro, só não usava a dentadura de plástico, pois seus caninos já são grandes o suficiente para a fantasia. Enquanto eu segurava seu braço que se encontrava próximo ao meu pescoço, estava rindo que nem uma doida. Não me recordo exatamente da minha fantasia, era mistura de vários detalhes diferentes.
- Mas, acho que amadurecemos um pouco - o sorriso continuou.
Queria falar alguma coisa, na verdade várias, mas infelizmente, não soube como colocar em palavras e no fim, nada saiu. Então, ficamos assim, em silêncio, olhando aquelas fotos.
- Você vai comigo? - tomei coragem para perguntar, sabendo que ele entenderia.
- Você tem certeza de que quer ir? - apenas concordei com a cabeça - eu vou sim.
Deu um pequeno sorriso e fechei os olhos por um tempo.
Logo Kalleb fechou o álbum e se levantou, me levantei logo atrás, depois que ele guardou o objeto, nós dois andamos para fora do quarto.
Enquanto ele seguiu para o andar de baixo, eu fui para meu próprio quarto.
Meu humor havia retornado e quando menos me dei conta, já me encontra com um caderno e várias canetas ao meu redor no chão. Tinha que colocar aquele plano no papel antes de realizar.
O ruim, foi que não demorou muito tempo pra ficar enjoads. Isso só acontece quando minha cabeça está com tanta coisa, que parece que se encontra girando.
- Se formos fazer isso, temos que fazer direito - de repente ouvi a voz do Kalleb.
Olhei pra ele com a cara de nojo que tinha no momento. É de se agradecer por nem uma visão incoveniente ter me atingido até o momento.
Ele conhecia bem aqueles momentos, e tive o pressentimento que estava contendo o riso, mas ele logo veio e se sentou ao meu lado.
- Você comeu alguma coisa? - em resposta, deu um sorriso largo e frouxo - como quer ir para outro universo sem ao menos comer alguma coisa? Cadê a Amanda gulosa que conheço?
Ele está certo, e para a surpresa ou não, eu não respondi a essas perguntas.
- Quer sanduíche?
- Quero - respondi como uma criança que acabou de aceitar algo que iria negar.
- Vem, vamos - ele se levantou e eu fui atrás.
Tínhamos poucas pessoas que sabiam cozinhar superbem no estúdio, e uma delas era ele.
Fomos para a cozinha e ele logo foi fazer um sanduíche, enquanto eu o observava da mesa.
Eu sei fazer, os meus ficam bons, mas eu não sou de perder a vista do Kalleb cozinhando, nem mesmo quando Alex entra e decide começar a fazer o almoço, afinal, era a vez dele.
Logo deu pra ouvir a Benny cantando algo do seu estúdio. O prédio já estava ganhando a vida que tanto amava.
Quando meu sanduíche ficou pronto, arrastei Kalleb para a parte dos fundos do prédio, saímos pela porta que leva para a floresta e sentamos por um tempo no banquinho que se encontra na parede, isso era apenas para que eu pudesse comer em paz.
Quando terminei o sanduíche, fiquei olhando um tempo para a floresta, sempre foi um lugar calmo, não posso negar, mas também é o lugar mais misterioso do terreno.
Com um sorriso calmo nos lábios, coloquei minha mão sobre a de Kalleb e logo entrelaçamos nossos dedos. Não precisava olhar para de rosto pra saber que ele também estava sorrindo.
Ficamos um tempo assim, talvez pensando em algo em específico, ou, apenas não pensando em nada.
- Vamos? - até que ele de repente interrompeu esse silêncio.
- Vamos! - dessa vez era eu quem estava com um sorriso de deboche.
Adorava aventuras, independente de quais; algumas vezes até preferia aquelas que me ofereeciam riscos.
Me levantei em um pulo e esperei que ele fizesse o mesmo. Com isso seguimos para o interior da floresta.
Lá, tínhamos vários meios diferentes de ir para um universo: através da Arvilis, através da própria floresta que também é um portal, e através da Mandy, que tem esse poder.
Decidimos ir falar com a Mandy, já que a Arvilis provavelmente nos daria um sermão e nos impediria de ir, e a floresta, bem, nunca aprendemos a usar ela, só os místicos sabem até então.
- Não - foi a resposta simples e seca de Mandy.
- Mas por que? - perguntei, perplexa com o fato de ela não está do meu lado.
- Amanda... - ela me olhou nos olhos - não se deve interferir em linhas temporais! Nem em universos! Quem tem que lidar com esse tipo de poder, já tem responsabilidade de mais para que tudo se mantenha no lugar! Não precisa de mais paralelos! De mais fraguimentos de tempo! De mais universos! Não precisa se confundir ainda mais com coisas bagunçadas desse tipo!
Havia alguma coisa errada, eu sabia. Seus olhos antes pretos, estavam brancos, vez ou outra eu ainda podia vê o brilho de chamas em seu interior, mas fraco.
Mandy não é tão séria assim, ela é a que mais liga o botão do "foda-se", ela não se importa se quebra alguma coisa. Além disso, ela luta pelo o que é certo.
- Vem Man... - Kalleb colocou mão em meu ombro.
Viramos as costas para ela, mas pude ver no último segundo suas chamas (as que ficam em seu cabelo e calda) aumentaram de repente.
Resisti ao impulso de voltar lá, afinal, não tinha certeza se iria brigar com ela, ou lhe abraçar em tentativa de acalma-la. E mesmo se eu fizesse algum desses, ainda teria a reação dela nisso tudo.
- Oi gente! - acabamos nos deparando com Kall, que estava indo na direção da qual viemos.
Olhei para ele um pouco surpresa, afinal, quase iria trombar nele. Mas Kalleb, por sua vez, estava calmo, provavelmente tinha previsto isso, ou apenas estava olhando pra frente, diferente de mim.
- Olha não recomendo você ir lá, ela tá bem irritada - alertei em uma brincadeira.
- Eu sei, eu convivo com ela, lembra? - ele deu um grande sorriso - ela só tá de mal humor, acho q tá tendo uma disputa interna - bateu um dedo na cabeça.
Verdade, quando Mandy descobriu que podia viajar entre universos, e como são o funcionamento deles, ela quis ir mais a fundo e acabou dividindo seus elementos em personalidades.
- Entendi - olhei para o caminho que viemos.
- Mas vai aí, me diz, o que tentou falar com ela? - ele perguntou, ainda sorridente - vai que posso ajudar!
Aquele sorriso, a alegria de Kall, ganhava de Kalleb algumas vezes, tenho que dizer.
- Bem, quero ir para outro universo, pra ajudar uma garota da qual tô tendo visões! - disse tudo de uma vez.
Vi aquele brilho dos olhos de Kall sumirem, não sei se foi pela velocidade em que falei, ou pelo que falei mesmo.
- Bem... Outra dimensão é diferente de outro tempo... - começou ele pensativo.
- E você não viaja entre linhas temporais - completou Kalleb, que estava quieto até então.
- Sim... Mas, quem disse que tem que ser eu? - o sorriso voltou, um diferente.
- A Mandy não quer ajudar Kall! - disse pra ele.
- Posso dá um jeito por você - e aquele sorriso se alargou ainda mais.
Sem dá nem uma explicação, ele saiu andando, rumo a Mandy, deixando tanto eu, quanto Kalleb sem entender nada.
- Espero que ele consiga - disse olhando para o caminho.
Pelo canto do olho, pude ver ele sorrindo, um que podia dizer muitas coisas se fosse isso o que ele queria.
- Vem, vamos - chamou ele de repente.
Não questionei para onde iríamos, apenas o segui até chegarmos na cerejeira. Nos sentamos no chão e ficamos ali em silêncio, vendo a vida da floresta fluir.
Não demorou muito para que essa paz fosse interrompida (parece que tenho esse tipo de sorte) com algo que não havia acontecido o dia inteiro.
Estava com raiva. Eu via meu quarto, e, de alguma forma, sabia que aquela era eu.
Estava rasgando alguma foto, e depois livros, um ursinho de pelúcia, uma roupa... O quarto já estava todo destruído quando me sentei no chão.
Aquela raiva toda, ainda estava lá, mas misturada com lágrimas.
Ecoavam palavras na minha mente como: "uma hora, vai passar", "você quem sabe" e muito mais como essa, mas nada me fazia sentido algum.
Eu sabia que, o caus que estava da cabeça daquela menina, não se comparava ao do quarto. Eu sentia que ela não conseguia se mexer e que todos aqueles sentimentos só aumentavam.
Eu sentia quando pensamentos negativos passavam por ela, mas sei corpo não se mexia pra cumprir aquelas coisas.
Ela apenas ficou parada diante tudo aquilo, até que de repente, tudo parou, não havia mais lágrimas, não havia mais raiva.
Quando ela teve certeza daquilo, a vi se levantar e começar a recolher tudo aquilo e colocar em algum saco, com intenção de jogar no lixo.
Não havia sentimento algum dentro dela. Ela apenas jogou tudo aquilo fora, como se jogasse suas emoções junto, como se aquilo lhe tivesse sugado a vida.
Bolou alguma coisa mentalmente, caso tivesse que dá explicação, depois, decidiu mudar seu quarto, colocando músicas que não entravam em sua mente.
- Amanda! - ouvi a voz distante de Kalleb.
Voltei a realidade tão rápido quanto sai. Não sabia quanto tempo havia ficado fora, mas pude ver nos olhos de Kalleb que aquele tempo havia sido eterno pra ele.
Kalleb abriu a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu, só o vi erguer a mão e tocar minha bochecha que tinha uma textura diferente. Surpresa, levei minha própria mão ao meu rosto, passando os dedos levemente pela pele, e ao tirar, me deparei com sangue novamente.
- Mas que... - minha frase foi interrompida por uma sensação de tontura.
Minha visão ficou embasada, parecia que eu estava girando, sem nem um chão para me apoiar.
Conhecia aquela sensação, só que nunca pude me acostumar com ela.
A questão é: realmente é o que estou pensando? Ou algo totalmente diferente? Afinal, as visões não pareciam ter uma lógica.
Infelizmente, eu não poderia fazer nada a respeito daquilo, nada além de torcer para que meu destino seja aquele que desejo.
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