Me sentei na cama e o olhei confusa.
- O que aconteceu? - Perguntamos juntos.
Kall até pensou em abrir a boca novamente e dizer algo, mas desistiu ao se dar conta de que nem eu mesma estava entendendo tudo aquilo.
- Bem... Eu te encontrei caída na floresta, desmaiada... - seu tom diminuiu.
Aquilo me era estranho, nunca havia acontecido nada parecido comigo.
Olhei para Kall, esperando a continuação depois daquilo, mas ele se manteve quieto, parecia está olhando para além de mim.
- Kall - chamei, torcendo para ser apenas uma visão e nada além disso.
- Você... Está diferente... - disse, como se tivesse sido forçado.
Não sou q pessoa mais santa, então iria fazê-lo falar uma hora ou outra, e me conhecendo bem, algumas vezes ele simplesmente desiste.
- Diferente? Como assim diferente?! - meu tom se elevou sem querer.
Kall desviou o olhar (talvez não tenha sido intencional) e acabou olhando para o espelho logo a frente.
Olhei para o espelho também, mas de onde eu estava, não dava para ver direito, então me levantei e fui até o espelho.
Ao me ver, tudo mudou dentro de mim: estava surpresa, mas chorando.
Eu deveria ter estranhado aquela leveza quando levantei!
Minha mente estava uma confusão de pensamentos. Queria entender aquela imagem no espelho... Queria entender aquela pessoa....
Não era eu, não podia ser, era muito diferente... Só poderia ser outra pessoa....
As asas brancas, que se destacavam em meio as minhas chamas, haviam sumido...
As chamas, que deveriam ser minha marca registrada, não existiam mais...
Estava uma mistura entre luz e escuridão, uma mistura igualitária, como já era antes, mas não havia o fogo... Não havia o meu elemento de origem! E nem minhas asas!
Cai de joelhos no chão, abraçando meu corpo, como se quisesse tocar as asas que não se encontravam mais alí.
O choque só aumentou quanto as lágrimas começaram a escorrer e uma dor surgiu de dentro do meu peito se espalhando por todo o meu corpo, até chegar no local que deveria ser minhas asas, e gritei.
Nunca havia chorando tanto quanto naquele momento...
Kall provavelmente sabia o motivo (ou era o que eu pensava), pois veio até mim e me abraçou... Me abraçou como nunca havia me abraçando antes...
- Vai ficar tudo bem - ele acariciou minhas orelhas que estavam baixas.
Como? Como vai ficar tudo bem? Era o que tanto queria perguntar, mas não consegui, o choro foi mais forte que eu.
Não sei dizer quanto tempo fiquei chorando abraçada a Kall, apenas que quando me acalmei, meu corpo ainda se mantinha cabisbaixo.
- Que tal um banho? - era a sugestão dele para tentar me acalmar ainda mais.
Não pude recusar.
Água nunca "apagou" nossas chamas, apenas diminuía um pouco, mas voltava ao normal quando saiamos do que nos molhava.
Quando tirei a roupa e me olhei no espelho, vi que não havia sinal de que alguma vez tive asas.
Entrei no chuveiro e as novas lágrimas se misturam com a água.
Fechei os olhos tentando entender tudo aquilo, mas nada me veio a mente.
Olhei então, para dentro de mim, e vi Luth e Escury, mesmo sendo as mesmas, elas pareciam confusas com alguma coisa, mas não falavam nada.
Abri meus olhos e olhei para cima. Finalmente havia parado de chorar, mas ainda sabia que aquilo poderia voltar a qualquer momento.
Decidi me sentar no chão. Era gelado, uma sensação que nunca havia sentindo antes.
- Mandy? Tá bem? - ouvi Kall chamar do lado de fora.
Olhei para a porta e comecei a pensar; eu e ele sempre fomos diferentes, ele sempre foi calmo e sorridente... E eu o oposto, sempre séria e explosiva, nunca entendi como tudo aquilo aconteceu.
- Acho que sim - murmurei para mim mesma.
Me encolhi e coloquei a cabeça no interior de meus braços. Fiquei assim por um tempo.
Quando finalmente decidi sair do banho, coloquei uma camiseta do Kall, uma das quais me deixa mais confortável.
Dei uma última olhada em meu reflexo e vi novamente aquele pessoa estranha.
Saí do banheiro e me deparei com um Kall balançando a cauda animadamente ao me ver.
- Parece um cachorro - disse tentando parecer animada...
Não deu certo. O que deveria parecer um sorriso forçado, logo se desfez.
Tive a sensação de que voltaria a chorar, mas isso não aconteceu.
Me sentei ao seu lado e coloquei a cabeça no seu ombro, olhando para o nada do quarto.
- Certeza que você está bem? - ele perguntou, mesmo sabendo a clara resposta que estava em meu rosto.
Neguei com a cabeça.
- E... Sabe o que aconteceu com você? - neguei com a cabeça novamente em resposta.
O que ele esperava? Nunca tive resposta para as coisas que simplesmente acontece comigo...
Senti ele se deitar na cama e o acompanhei, deitando ao seu lado.
- Vamos achar a resposta... Vamos resolver isso...
Mas kall... Como?
Infelizmente, não tive coragem de dizer nada do que estava na minha mente.
Ficamos assim por um tempo. Kall acabou adormecendo, mas eu não consegui nem por um segundo.
Quando aquele silêncio começou a me torturar por dentro, decidi me levantar e ir procurar respostas por mim mesma.
Sai do quarto um pouco receosa. Afinal, se eu não estava me reconhecendo, o que meus amigos pensariam?
O Kall provavelmente deve ter me reconhecido através do poder da visão.
Consegui sair do prédio sem ser vista e voltei para a floresta.
Se tudo aquilo aconteceu lá, era lá que eu encontraria as respostas que precisava.
Refiz meu caminho até chegar no mesmo lugar que aquilo havia acontecido e olhei ao redor.
Não demorou muito para que eu me depare com a cerejeira, que anos atrás havia causado tudo aquilo na minha vida...
- Foi você? De novo? - perguntei, sem emoção alguma na minha voz.
Olhei para aquele tronco, esperando qualquer resposta que viesse, e mesmo demorada, ela chegou:
- Mandy Sall Lin, minhas ações são apenas o que seu coração pede.
De repente, flores começaram a sair da árvore e voar ao meu redor.
- A Fênix dentro de você, morreu e com ela as chamas de seu coração - era uma metáfora - mas todas as fênix renascem de suas próprias chamas, você apenas tem que saber como fazer isso.
As pétalas se soltaram das flores, e quando me dei conta, elas já haviam dobrado de quantidade e envolvido por completo.
- Arvilis... - disse tentando entender, mas logo não conseguia mais me mecher - Arvilis! - gritei em vão.
Minha visão ficou escura. Havia sido completamente envolvida por aquelas flores de cerejeira.
Não sei que lição ela queria me mostrar, mas não tinha certeza se aquele seria o melhor caminho.
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