quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Nossas realidades - pt 7 {UD-Estúdio}

Não demorou muito tempo para que eu a visse sair de uma porta dupla, mas antes que eu pudesse agir, tudo congelou ao meu redor e ouvi uma voz conhecida ecoar em minha mente:

- Você é maluca! - era Mandy, com toda certeza.

Decidi fechar os olhos, sabendo aonde a veria.

Pouco a pouco, a voz foi ganhando forma, vi um par de asas brancas fechadas diante de mim.

As asas se abriram em uma velocidade surpreendente e se encolheram (parecendo ser de filhotes) ao lado de sua dona, que odiava fecha-las por completo, por "falta de mobilidade em relação a usa-las".

- Obrigada - agradeci de bom grado.

- O que você pretende Amanda? - perguntou ela - Perguntar? Ela é nós, não vai dar uma resposta - estava séria, e certa, tenho que admitir.

- Então vou mostrar que ela não está sozinha - me defendi, e ela abriu a boca pra dizer algo, que eu interrompi - mesmo que as dores sejam diferentes, ainda são sentidas! - ela logo fechou a boca.

Verdade, eu e ela sofremos bastante, não do mesmo jeito, mas de alguma forma, era a mesma coisa, mesmo que diferente. E, parecia que o quanto mais lutavamos, mais sofriamos, até decidir dar um fim em tudo aquilo.

- E como pretende fazer isso? Usando meus poderes? - eu não havia pensado nisso.

- É, usando seus poderes mesmo! - dei um sorriso de alguém que acabou de conseguir tudo o que mais queria.

Sei que meu sorriso poderia fazer as pessoas pensarem que vou matar alguém, mas acredite, ainda não cheguei a fazer isso.

Então eu sorria, Mandy me encarava séria, poderia imaginar que estava furiosa se não a conhecesse bem: seu fogo estava baixo, e seus olhos pretos, poderiam facilmente serem vistos como um buraco negro.

Ela suspirou e uma luz se manifestou nos meus olhos, me forçando a abrir-los.

De repente, não havia só a garota ali, como também outras pessoas, estavam confusas sobre o que aconteceu com elas.

Enquanto eu? Bem, mesmo não entendendo nada, apenas olhei ao redor, procurando por Kalleb, que se encontrava atrás de mim, totalmente parado.

- Kall... - me aproximei dele.

Conseguia sentir sua respiração diferente, ele tentava se controlar para não sumir dali o quanto antes.

- Amanda? - alguém perguntou.

Olhei pra trás e vi aquela garota de mais cedo.

O curioso, era que não era só eu olhando para ela, minha versão desse mundo também olhava.

- Ué, duas? Uma gêmea? - perguntou uma garota auta.

Havia muita gente alí, e eu só pensava em tentar explicar tudo aquilo, mas as palavras não saíram da minha boca. Eu só conseguia me preocupar com Kalleb, pegando a mão dele, sentido os momentos que era ele tentava retirar sem ser notado.

- É uma história longa - foi a única coisa que consegui dizer.

Olhei ao redor, com esperanças de encontrar forças para completar; foi aí que vi, o mundo continuava em movimento, como se não exitissemos alí.

Estávamos em outro universo, ou melhor, um local entre os únicos.

- Recomendo não se assustarem - a voz de Mandy surgiu do nada.

Logo aquela imagem das asas brancas lhe embrulhando apareceu novamente, mas dessa vez, ao abri-las, Mandy as batia, o que lhe permitia voar, mesmo em um espaço pequeno como aquele.

- É curioso como histórias se intrelassam não mesmo Amanda? - ela olhou para mim e depois para a minha outra versão.

Não estava gostando daquele tom de metáfora que ela estava usando.

Ela estava usando o papel de Rainha. Sabe? Aquele tipo que não tem piadade com as palavras que diz, sem medir nem mesmo o lugar que utiliza a vírgula.

- Você - ela se aproximou da minha versão, ou melhor, nossa versão - você usa muitas máscaras - Por um vislumbre, ela olhou para mim - não deveria - e voltou para ela.

Todos alí estão tão confusos que não falaram nada a respeito daquilo que estavam vendo.

Mandy ficou daquele jeito por um tempo, suas asas batiam sem fazer nem um vento, sua calda se movia com cautela. Nem sempre dá para acreditar que ela tem esse lado observador.

- Do que você está falando? - de repente uma garota ruiva perguntou.

- Quem é você para dizer essas coisas? - a menina grande perguntou.

E novas perguntas foram surgindo, e com cada uma delas, um sorriso ia de formando no rosto de Mandy.

Acredite se quiser, ela ideia explicar as coisas, mas gostava quando elas iam a seu favor.

- Digamos que eu, e aqueles dois ali - ela apontou pra mim e Kalleb - somos de outro universo.

- E como vieram pra cá? - perguntou mais alguém.

De repente, senti uma espécie de lágrima escorrer de meus olhos. Coloquei os dedos para ver do que se tratava e me surpreendi ao ver que não eram lágrimas, mas sim sangue.

Mandy claramente viu isso, e me encarou por um tempo, depois se voltou para a outra Amanda.

- Não é como, é por que - a encarou - o motivo é simples, essa aqui, nós trouxe pra cá - disse como se jogasse uma bomba em todos.

- Eu não fiz nada! Eu nem sei como fazer isso! Nem tenho poder pra isso! - tentou se defender, com medo de Mandy.

- Verdade - com isso, Mandy pousou no chão, fazendo uma expressão calma - mas de toda forma você tem papel nisso.

- Como assim? - perguntou um garoto.

- Bem, quando se contém sentimentos de mais, cria brechas entre os universos, e assim, além de compartilhar isso com outras pessoas que tiveram dores parecidas, há riscos de criaram outros universos - ela explicou, pacientemente.

Mas, obviamente, eles não entenderam direito, e ela percebeu. Mandy odiava ainda mais ter que repetir alguma coisa, então sempre mudava de estratégia:

- Em outras palavras, o sofrimento dessa aqui - apontou para a Amanda - foi para aquela alí - e apontou para mim - infelizmente, aquela a Amanda, não sabe se manter parada e decidiu vir ajudar - ela continuava apontando pra mim, com um pouco de ódio em sua voz.

Eu lhe mostrei o dedo do meio. 

Não tinha certeza se aquilo era pra irrita-la, ou apenas um ato de dizer "eu sou assim idiota", mas me sentia bem de qualquer jeito.

- E aqui estamos nós agora, ou melhor, eu, pra arrumar essa bagunça... - suspirou irritada.

- Eu não preciso de ajuda - parece algo que eu diria não é? Mas bem, foi a outra Amanda - de nem uma das duas! Eu estou bem!

Com isso, Mandy encarou minha outra versão, tão séria que me fazia dúvidar se queria matar ela ou não.

De repente, seus olhos antes pretos, foram mudando de cor: se tornaram vermelhos, brancos... Um vermelho e outro branco, até parar em um branco e outro preto.

Suspirando, Mandy fechou os olhos e ao abri-los, estavam todos vermelhos, ela se virou para o centro, pensativa.

- Isso é no que você quer acreditar - concluiu - mas eu e ela - apontou com a cabeça para mim - sabemos muito bem como é essa sensação, há de substituir a dor - e com essa última frase olhou de volta para a Amanda.

- Mas...

- Se não acredita, vou te mostrar - e ergueu a mão.

A Amanda claramente estava mentindo. Me conheço bem a ponto de ver os reflexos de uma outra versão.

Toda vez que eu a encarava, ela desviava o olhar, e quando respondia a Mandy, sua voz não tinha confiança.

A questão é: ela estava repetindo aquela mentira para ela mesma, talvez vezes de mais, com intenção de começar a acreditar.

E eu não era única a notar isso, Mandy também notou e por isso, decidiu mostrar.

Aí está mais um brinde que copiou de Kall: não bastava ver outro universo, também poderia mostrar o que via para outras pessoas.

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