Não me lembro do Kall ter tido algum jardim desses no castelo, e olha que a mãe dele era a pessoa mais cuidadosa que pude conhecer...
- A árvore está no meio do jardim - disse a menina que finalmente estava andando.
Seguimos até o centro e logo vi a árvore em destaque. Não pensei duas vezes em ir até ela.
Alguma coisa me impulsionou e toquei a árvore, mas não senti a sensação de quando havia feito isso pela primeira vez (quando me tornei uma híbrida), mesmo sentido a magia da árvore passar por mim.
- Você tem que encontrar a si mesma - ouvi quando o vento soprou - tem que aceitar a si mesma - e as flores voaram.
Senti uma lágrima discreta escorrer do meu olho. Mesmo que meu rosto estivesse calmo, minha mente estava com um turbilhão de sentimentos.
Virei de costas para a árvore e me sentei encostada no tronco, disposta a meditar um pouco...
- Você conseguiu o que queria? - ouvi a voz da menina.
Já me encontrava de olhos fechados, quando o silêncio e a quietude foi interrompida pela garota que eu havia esquecido que existia...
Abri os olhos e olhei séria para ela, enquanto imaginava estrangulando sua garganta... Para minha sorte, não deixei transparecer o quanto aquilo me divertia.
- Sabe, quando eu não consigo alguma coisa, eu tento de outro jeito - disse ela balançando os pés?
Tem alguma coisa que não consiga como princesa?
Acredite, adoraria ser arrogante assim, mas não fui, ela era só uma criança, não tinha culpa de nada.
- Você realmente não consegue ficar quieta não é mesmo? - perguntei por fim.
Ela pareceu triste de primeira momento e logo voltou a sorrir.
Não resisti por muito tempo e dei um pequeno sorriso. Ela me lembra o Kall, principalmente na bondade que o coração transmite.
- Você me lembra muito alguém que conheço - disse com nostalgia.
- Sério? Quem?
- Meu namorado, Kall - levantei a cabeça e olhei para as nuvens, visualizando o rosto do lobo de fogo.
- Ele deve ser uma pessoa muito legal pra te fazer feliz - olhei de canto para ela e vi que seu sorriso aumentou.
- Isso é pouco pra ele - dei uma risada.
Kall me deixava sem paciência na maior parte do tempo, mas sempre estava ao meu lado quando mais precisava.
- Mas você não entenderia isso, é muito nova - Queria tratá-la com mais intimidade, não queria arriscar.
Estava feliz, isso era bom pra mim, sentia minha calda balançar atrás de mim, revelando meu entusiasmo.
- É, talvez eu não entenda - suspirou ela - Mas o Kyleu é muito especial pra mim - disse sonhadora - aquele menino, daquele hora - e sorriu.
Será que era ele o filho do guarda?
De todo modo, aquilo não importava.
Ficamos em silêncio por um tempo, olhando para as nuvens.
- Meu nome é Many, e o seu? - perguntou ela de repente.
- Mandy - não vi motivo de esconder.
- Você é legal Mandy, espero que encontre o que deseja - concluiu a pequena em um último suspiro.
Ela logo caiu no sono e escorregou para meu colo. Não soube como reagir.
Fiz um pequeno carinho em sua cabeça e a ergui no colo. Caminhei um pouco com a garota em meus braços, procurando pelo guarda que estava a espreita.
Conhecia bem o método de "desaparecer e ver o que acontece", os guardas de Kall fariam a mesma coisa comigo, não confiavam em uma híbrida com o príncipe...
Parei só ouvir um som diferente vindo da mata.
- Ela pegou no sono, gostaria de levá-la até o castelo - falei em auto e bom som.
- Pode deixar que farei isso - disse o guarda que apareceu atrás de mim.
Então era esse seu poder? Ficar invisível?
Mesmo com uma ótima audição de loba, não tinha certeza de onde ele estava, e pelo visto, era mais perto do que eu poderia imaginar.
Ergui os braços, disposta a entregar a menina para o guarda, mas ela não deixou... Segurou minha roupa e murmurou alguma que só entendi por causa da minha audição apurada:
- Fica comigo... - o guarda me olhou confuso.
Não sei se era comum a menina falar enquanto dormia, mas alguma coisa me impediu de seguir em frente com aquilo que iria fazer.
- Na verdade, gostaria de levar ela - a segurei um pouco mais firme - digamos que gostei a pirralha... - é um pequeno sorriso sincero surgiu no meu rosto.
O guarda não pareceu contente, e já ia abrir a boca para dizer alguma coisa, antes de eu interrompe-lo:
- Não farei nada á criança - afirmei - além disso, você estará atrás de mim o tempo todo, se eu fizer alguma coisa, você pode muito bem me parar.
Só que não... Ele pode até me ganhar no poderes (já que estou sem os meus), mas ainda o supero na força física.
Não fui a única a vê essa lógica, pois ele logo concordou, provavelmente se recordando do que aconteceu com as algemas que havia colocado em mim.
Caminhei com a menina em meus braços o caminho todo, pois ela não soltava minha roupa nem se eu puxasse.
Mesmo que minha mente visualizasse várias maneiras diferentes de arrancar aquela mão, não a fiz... E, infelizmente, mesma se cortasse a mão fora, ainda teria uma parte segurando minha roupa...
Quando chegamos no castelo, decidi tentar entregar a menina ao pai, que não se mostrou confuso com aquilo, mas ela logo sussurrou novamente:
- Fica comigo - e ainda não soltava minha roupa.
Garota insistente...
Dessa vez nem sei próprio pai havia entendido o que havia acontecido.
- Parece que ela gostou de você - disse o rei, que estampou um sorriso no rosto.
- É, parece que sim... - comecei a me questionar sobre o que estava acontecendo - posso levá-la até o quarto? - perguntei, olhando o rosto calmo da menina.
- Pode... - o rei olhou para o guarda - mostre para ela o quarto de Many...
Acompanhei o guarda até o imenso quando da menina e a coloquei na cama.
Foi só sentir a macieis de sua própria cama que a menina me largou. Estava prestes a me afastar quando a pequena mão segurou a minha e murmurou mais uma vez:
- Fica comigo...
Suspirei, pelo visto não tinha mais nada para fazer...
Peguei a cadeira que estava na penteadeira e me sentei ao lado da cama, observando a calmaria no rosto da pequena, que mantinha suas asas abertas, espalhadas pela cama.
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